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A candidatura Barack Obama trouxe à luz um interessante debate sobre a mistura racial nos Estados Unidos. Americanos de raça mista, ou seja, filhos de pai negro e mãe branca ou vice-versa, são frequentemente provocados por colegas com perguntas do tipo: “o que você é afinal, branco ou negro?”
É exatamente o caso de Obama, filho de uma mulher branca, do Kansas, e pai negro, do Kenia, o candidato sentiu que seria política e eleitoralmente correto manifestar-se publicamente sobre a questão que incomoda alguns milhões de americanos que se encaixam nesse perfil racial. E o que ele disse em discurso na Filadélfia soou como música aos ouvidos daqueles que sofrem com esse tipo de confrontação: ser ou não ser suficientemente negro? Obama disse: “você pode ser branco e amar seus pais negros ou ser negro e amar seus pais brancos”.
Americanos de raça mista dizem que questões sobre se Obama “é muito negro” ou “não é negro bastante” mostram que a nação norte-americana ainda está arraigada às velhas categorias de raças. Entretanto, esse quadro está mudando à medida que cresce o número de casamentos inter-raciais pela presença crescente de imigrantes de todas as partes do mundo no país.
O Censo americano de 2000 anotou 3.1 milhão de casais de diferentes raças, o que significa 6 por cento de todos os casais. E foi a primeira vez, naquele ano, que se permitiu ao recenseado identificar-se como sendo de duas ou mais cores. E o Censo apurou que 7.3 milhões de americanos se enquadraram nesta categoria, isso representa 3 por cento da população. Ou seja, Barack Obama naquele ano poderia, se não o fez, identificar-se como branco e como negro.
Na verdade, Obama é o que chamamos no Brasil de mulato ou pardo. Curiosamente, o dicionário de inglês registra o verbete mulatto exatamente com a mesma definição que ele tem em português, mas não se tem notícia de seu uso nos EUA. Até porque o país, que teve seríssimos problemas raciais no passado recente, acentuou a divisão entre brancos e negros, deixando sem espaço essa parcela da população miscigenada que vive no estreito limite entre as duas raças. Daí a importância da candidatura Obama, que pode aprofundar esse e outros temas que são tabú na sociedade americana.
No país do brasileiro cordial (na expressão atribuída a Sergio Buarque de Hollanda que talvez não seja mais atual), a mistura de raças nunca trouxe grandes divergências no relacionamento entre as pessoas de cores diferentes, até porque a discriminação no Brasil é muito mais social do que racial.
Durante muito tempo, as expressões “pardo” e “mulato” foram usadas regularmente, sem qualquer tom pejorativo. Os redatores dos jornais as adotavam na hora de descrever a vítima ou o assaltante, certamente com base na informação policial. As carteiras de trabalho traziam também a expressão “pardo”, definida pelo funcionário burocrata depois de uma rápida passada de olhos no interessado. A palavra “mulato” aparece em dezenas (centenas, talvez) de canções brasileiras, desde “o mulato inzoneiro”, de Ary Barroso, à “mulata bossa-nova”, de João Roberto Kelly.
É isso. Enquanto os americanos brigam para definir o que são em matéria de cor da pele, no Brasil mulata virou profissão e produto de exportação. ELIAKIM ARAUJO
(*) Jornalista - ex-apresentador das Redes Globo, Manchete e SBT. Site http://www.diretodaredacao.com/ |